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Mostrando postagens de março, 2012
E aquele fora seu último movimento antes do naufrágio. Debateu freneticamente seus braços, forçou as pernas para deixar o corpo na superfície. Até aquele momento acreditava ainda poder ser vista e amparada. Não se dera conta de que era apenas mais uma, em meio a tantos outros braços e pernas a se debater. A água parecia um imenso liquidificador, repleto de corpos prestes a perder seus pedaços ou renderem-se às marés. Subitamente compreendeu que o tempo passara rápido demais e a exaustão já tomava conta de todo o seu ser. Seu coração desistira, seus braços o seguiram, logo depois as pernas e por último sua face. Sucumbiu ao mar, depois de um breve e mal interpretado fôlego. O mar a envolveu, e o mar, foi doce, doce e suave, doce e aconchegante. Abraçou-a pelo ventre, entrelaçou-se em seus cabelos, acariciou sua face e a conduziu para desconhecidos lugares. Rendeu-se.
Sabe o que eu queria agora, meu bem? Sair, chegar lá fora e encontrar alguém Que não me dissesse nada Não me perguntasse nada também Que me oferecesse um colo, um ombro Onde eu desaguasse todo desengano Mas a vida anda louca As pessoas andam tristes Meus amigos são amigos de ninguém Sabe o que eu mais quero agora, meu amor? Morar no interior do meu interior Pra entender por que se agridem Se empurram pr´um abismo Se debatem, se combatem sem saber Meu amor Deixa eu chorar até cansar Me leve pra qualquer lugar Aonde Deus possa me ouvir Minha dor Eu não consigo compreender Eu quero algo pra beber Me deixe aqui, pode sair Adeus.
Maria era uma mulher sem memória. Ao menos, era nisso que acreditava, e era isso o que afirmava a todos que cruzavam seu caminho ou, por sua história perguntavam. Maria era uma mulher sem passado. Até hoje não se sabe se realmente nasceu ou, simplesmente apareceu, brotada do chão, tal qual batata ou semente de qualquer coisa, espalhada ao acaso em terreno baldio, sobrevivente do sutil momento entre a queda, a umidade e o calor. Maria não se lembrava de nada. Nem do dia seguinte conseguia se lembrar. Nem de quem acabara de conhecer. Carregava consigo apenas algumas impressões, mas nada que deixasse marcas. Era uma mulher sem marcas, apenas caminhava. Maria não tinha história, mas tinha uma vida ou, uma trajetória. Maria não tinha vínculos, pois não os lembrava, mas por ser boa, era amada. Maria não tinha nada, e de nada precisava. Maria seria uma mulher feliz, se soubesse o que poderia ser a felicidade mas, dizia-se simplesmente uma mulher. Mulher sem rastro, mulher sem lastro, mulher...
A maneira como fechou a porta espantou-a, paralisou-a por vários, e diversos dias. Dias reversos. Não percebera o movimento em si, mas o estrondo fora surdo e, ensurdecedor. Deixou-a com a marca de um imenso vazio na alma. Fora lançada subitamente ao abismo e estava sem pára quedas. Fora pega desprevenida e, aquela porta, ao fechar-se, encerrava consigo qualquer possibilidade. O corte fora por demais profundo, não haveria mais forma, jeito ou situação de remediá-lo. O estrondo fora o fim, sem qualquer sinal ou alarde. Passou os dias seguintes assim, sem palavras, sem ações, sem piscar ou pestanejar. Ficou esperando, simplesmente esperando. Esperando o tempo. O tempo passar.
"Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça(...) No final, ela vence, pois desde o nascimento esse é o nosso destino e ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que vai estourar" Irvin D. Yalom - A Cura de Schopenhauer
Tomara Que você volte depressa Que você não se despeça Nunca mais do meu carinho E chore, se arrependa E pense muito Que é melhor se sofrer junto Que viver feliz sozinho Tomara Que a tristeza lhe convença Que a saudade não compensa E que a ausência não dá paz E o verdadeiro amor de quem se ama Tece a mesma antiga trama Que não se desfaz E a coisa mais divina Que há no mundo É viver cada segundo Como nunca mais. Vinícius de Moraes - Tomara
Depois de algum tempo Alice percebera uma mudança. A dor que agora lhe doía era uma dor turva, nebulosa. Apesar da força que parecia arrebatar seu peito e seus sonhos, em múltiplos pedaços, Alice percebia que tudo o que se espalhara a sua frente a conduzia a algum lugar outro, desconhecido, fora do conceito do que poderia ou não estar nos seus planos. Entregara-se inteira, ao acaso. Estava a deriva. Aprendera a desapegar-se da vida, tanto, que poderia morrer agora, em paz. Na verdade, não seria má ideia se isso acontecesse, nesse momento, de repente, como um susto que fizesse parar seu coração entre uma batida e outra. Tum, tum... um arregalar de olhos... tum, tum... um fôlego que se vai e não volta... tum, tum... e fim.
Hoje havia algo impresso em minha face. Pude ver nos olhos das pessoas que me olhavam, alguma estranha descoberta, e fiquei intrigada... O que deixara eu, transparecer? Algo que talvez nem eu mesma estivesse a perceber... O que ficou tão óbvio?
Parceria Parceria é um casamento, mas que dura… Porque na parceria não há jura, Não há promessa de fidelidade. Se, em plena criação, alguém lhe atrai Você diz ao parceiro, e você vai E volta a ele quando dá saudade Porque ele também não magoa Pois sempre sai alguma coisa boa Quando na música se prevarica; Um samba, uma modinha, uma toada… Depende muito de cada transada, Mas se é bem dada é uma canção que fica. Parceria é um casamento que não cansa Porque não tem contrato nem cobrança. Ciúme tem… mas isso é passageiro. Quem é traído muitas vezes reage Propondo aos dois fazer uma ménage No instrumento do próprio parceiro. Mas, brincadeiras a parte, a parceria É uma amizade que se faz um dia E que não rompe por qualquer besteira. É o desejo ardente da Poesia Que vai pra cama com a Melodia Deixando frutos pela vida inteira. Paulo César Pinheiro
    Você me deixou satisfeito Nunca vi deixar alguém assim Você me livrou do preconceito de partir Agora me sinto feliz aqui Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho? Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho No meu caminho não tem pedras, nem espinhos Eu durmo sereno e acordo com o canto dos passarinhos
Embarcarei na história não vivida Na história não contada. No desvio, no outro caminho, no caminho do meio. Vou! Vou conhecer o mundo, vou me alimentar de vida e viola. Vou-me embora. Vou criar minha história. Desenrolar meu enredo, inventar minha versão. Vou colorir a cor do meu coração. Vou ser feliz! Deixo aqui, minha casca e minha cicatriz.
Pintar, vestir Virar uma aguardente Para a próxima função Rezar, cuspir Surgir repentinamente Na frente do telão Mais um dia, mais uma cidade Pra se apaixonar Querer casar Pedir a mão Saltar, sair Partir pé ante pé Antes do povo despertar Pular, zunir Como um furtivo amante Antes do dia clarear Apagar as pistas de que um dia Ali já foi feliz Criar raiz E se arrancar Hora de ir embora Quando o corpo quer ficar Toda alma de artista quer partir Arte de deixar algum lugar Quando não se tem pra onde ir Chegar, sorrir Mentir feito um mascate Quando desce na estação Parar, ouvir Sentir que tatibitati Que bate o coração Mais um dia, mais uma cidade Para enlouquecer O bem-querer O turbilhão Bocas, quantas bocas A cidade vai abrir Pruma alma de artista se entregar Palmas pro artista confundir Pernas pro artista tropeçar Voar, fugir Como o rei dos ciganos Quando junta os cobres seus Chorar, ganir Como o mais pobre dos pobres Dos pobres dos plebeus...
Nesse universo todo de brilhos e bolhas Muitos beijinhos, muitas rolhas Disparadas dos pescoços das Chandon Não cabe um terço de meu berço de menino Você se chama grã-fino e eu afino Tanto quanto desafino do seu tom Pois francamente meu amor Meu ambiente é o que se instaura de repente Onde quer que chegue, só por eu chegar Como pessoa soberana nesse mundo Eu vou fundo na existência E para nossa convivência Você também tem que saber se inventar Pois todo toque do que você faz e diz Só faz fazer de Nova Iorque algo assim como Paris Enquanto eu invento e desinvento moda Minha roupa, minha roda Brinco entre o que deve e o que não deve ser E pulo sobre as bolhas da champanhe que você bebe E bailo pelo alto de sua montanha de neve Eu sou primeiro, eu sou mais leve, eu sou mais eu Do mesmo modo como é verdadeiro O diamante que você me deu. Diamante Verdadeiro - Maria Bethânia http://www.youtube.com/watch?v=7AeBCeMIPO8
E Ana se manteve assim, paralisada, por alguns longos segundos. Aquela cena lhe era por demais familiar, uma repetição da repetição.Surpreendiam-lhe as coincidências e as inconstâncias da vida. Por alguns instantes sentiu-se sem ação. Mas, por experiência, ou teimosia, o que dá na mesma quando se pensa em sobrevivência, ela já sabia o que se seguiria: um pouco de dor, algumas lágrimas, uma leve desesperança, uma nova couraça, uma página virada e um novo caminhar. A vida continuava a lhe ensinar e Ana, já estava aprendendo a aprender com a vida. Suspirou, como se falasse de um lamento da alma, prendeu os cabelos em um displicente coque, deixando assim alguns fios ainda soltos pela face, escolheu a direção e endireitou o passo. Continuaria a seguir. Era o que sabia fazer.
A história de uma vida é feita de escolhas. Escolhas que determinam experiências. Experiências que criam memórias, marcas nos olhos da alma. Memórias enlaçam histórias. Histórias contam da vida. E a vida, o que é? Vida é passagem meu amigo. Passagem, só de ida.
O pior medo, é o medo da felicidade! É triste e brutal. Chega de repente e muda radicalmente a direção. Por receio ou covardia, do inesperado ou coisa parecida. Impede os sonhos e as realizações. Freia o destino, altera os caminhos. É barreira. Bloqueia, termina.