Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2012
E eis que após aquela despedida, carregada de afetos mútuos e mutuamente calados, Antônio se esgueira e alonga o olhar até perdê-la em meio a cortina da multidão. E, em seus pensamentos confessa: Angela, contigo eu me perderia...
Saudades. Saudades do que pode vir, do que pode ser, do que ainda não foi. Saudades do pouco que vivi, e do muito que ainda vislumbro, por aqui. Saudade. A saudade é amarela, amarela como o sol. Se olhamos para ela cegamos, cerramos os olhos e ficamos, feito tontos desnorteados, sem rumo, sem prumo sem porquê. A saudade dói, arde, coça é coisa feita por bicho invasivo que se instala e inala cada sopro de pensamento. A saudade incomoda. Deixa febril, cansado e estúpido, os amantes e os amados, os esquecidos e os alquebrados. Saudade do passado. Saudade do presente. Saudade do futuro. Saudade do tempo que foi, do tempo vindouro, do que já não é, do que ainda será. Saudade, saudade, saudade. Quantas saudades em um trago... Sim, trago saudades, saudades de ti!
Talvez eu seja o último romântico...
Naquele instante, naquele exato instante, em que parte de mim se voltou, percebi que parte de mim ficara. Foi então, que de ti (ou de mim?) me despedi.
Ela tinha os olhos calmos, mareados de amor. Olhos de mulher adocicada por mornas palavras. Olhos de mulher amaciada por suaves toques. Sutis retoques, que só atentos olhos atrevem-se a ver. Olhos de mulher amada. Doce, calma, serena. Brinca, ainda mais faceira sem esforço ou pretensão. Certas coisas se resumem outras se ampliam e tudo passa a ocupar um novo lugar. Mulher amada. Pele serena, lábios encarnados, olhos de estrelas. Vislumbra o céu, parece voar. Sorri e escapa. Guarda um segredo Segredo de amar.
“Se abríssemos as pessoas, disse uma vez Agnés Varda, iam-se encontrar paisagens.” Sussekind, 1990
Parti. Foi preciso partir. Carreguei comigo novas ferramentas. Comecei diferente. Agi diferente. Senti diferente. Mas agora, percebo que, ao partir, deixei de mim um pedaço. Um pouco, por aí. É preciso recuperá-lo. Está chegando a hora. Não é mais possível perder, o que tanto custou conquistar. Meu brilho brilha em outro lugar. Meu melhor olhar se abriga no mundo e não, nas coisas que se criam desse mundo. O melhor de mim, para mim, não está nesse lugar. Não sei mais viver cativa. Não sei mais me consolar. Nasci para ser livre, mas já não sei se já sei, voar. Parti. E eis que se inicia o processo de regressar.
Praia é fronteira: terra e mar, mar e ar, ar e sol e eu, a figurar como o quinto elementar.
Quero ficar no teu corpo Feito tatuagem Que é pra te dar coragem Prá seguir viagem Quando a noite vem... E também pra me perpetuar Em tua escrava Que você pega, esfrega Nega, mas não lava... Quero brincar no teu corpo Feito bailarina Que logo se alucina Salta e te ilumina Quando a noite vem... E nos músculos exaustos Do teu braço Repousar frouxa, murcha Farta, morta de cansaço... Quero pesar feito cruz Nas tuas costas Que te retalha em postas Mas no fundo gostas Quando a noite vem... Quero ser a cicatriz Risonha e corrosiva Marcada a frio Ferro e fogo Em carne viva... Corações de mãe, arpões Sereias e serpentes Que te rabiscam O corpo todo Mas não sentes Tatuagem - Chico Buarque