"Sou acusada de ser antissocial e indiferente aos outros, de ter renunciado aos privilégios que tinha só para me livrar das pessoas. Um epitáfio para o meu túmulo: "Egoísta, linha-dura.'
Sou acusada de fóbica. De não aceitar os deveres e as convenções, de escapar do mundo conhecido por não suportá-lo. Também disseram que sou misantropa, que detesto o ser humano, que virei eremita por causa da vaidade de considerar o outro indigno da minha proximidade. Que dou as costas para o afeto das pessoas porque a única estima que me interessa é a minha própria.
Sou acusada de pedante porque o mundo não é indispensável para mim.
Olhando as coisas assim, não deixam de ter razão. Mas eu poderia replicar que há uma aspiração por trás disso: o desapego.
Tenho lido muito nesses tempos perto do mar, de Schopenhauer aos budistas. E me desprendi das minhas diversas posses, de móveis e roupas até o marido. Também do lugar social que ocupava, talvez a coisa mais difícil de largar. Estou obcecada com essa aprendizagem, e a meditação me ajuda a verificar o presente. Almejo, a longo prazo, conquistar a mais ampla libertação que puder, que na certa será sempre menor do que eu queria. Sinto que a vida começa a fluir. Flui e posso tocá-la. E diminui o medo da morte.
Não lamento ter sessenta um anos. Quase diria o contrário: essa idade me deu quietude, uma nova quietude. O passado não importa, já aconteceu. O futuro não existe.
Brindo então à única coisa que temos de verdade: o presente."
Marcela Serrano
10 Mulheres
Simona
Pág. 127/128
Sou acusada de fóbica. De não aceitar os deveres e as convenções, de escapar do mundo conhecido por não suportá-lo. Também disseram que sou misantropa, que detesto o ser humano, que virei eremita por causa da vaidade de considerar o outro indigno da minha proximidade. Que dou as costas para o afeto das pessoas porque a única estima que me interessa é a minha própria.
Sou acusada de pedante porque o mundo não é indispensável para mim.
Olhando as coisas assim, não deixam de ter razão. Mas eu poderia replicar que há uma aspiração por trás disso: o desapego.
Tenho lido muito nesses tempos perto do mar, de Schopenhauer aos budistas. E me desprendi das minhas diversas posses, de móveis e roupas até o marido. Também do lugar social que ocupava, talvez a coisa mais difícil de largar. Estou obcecada com essa aprendizagem, e a meditação me ajuda a verificar o presente. Almejo, a longo prazo, conquistar a mais ampla libertação que puder, que na certa será sempre menor do que eu queria. Sinto que a vida começa a fluir. Flui e posso tocá-la. E diminui o medo da morte.
Não lamento ter sessenta um anos. Quase diria o contrário: essa idade me deu quietude, uma nova quietude. O passado não importa, já aconteceu. O futuro não existe.
Brindo então à única coisa que temos de verdade: o presente."
Marcela Serrano
10 Mulheres
Simona
Pág. 127/128
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