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E ela o amava freneticamente.
Debruçada por sobre seu corpo, estava feliz, ele estava na posição certa... e ela? Galopava faceira, feito uma amazona, sentindo aquele pau duro a lhe massagear as entranhas. Podia sentir o frêmito de todo o seu corpo e, finalmente, o gozo! Era ela agora, quem gritava, urrava de prazer, acordando a vizinhança toda, para o sono da vida.
Enquanto isso, suas mãos enlaçavam seu pescoço. Ela, agora, tinha toda a força do mundo. Com a mão esquerda, ela pressionava com vontade a sua garganta e, com a direita enfiava dedo por dedo em sua boca aberta, depois a mão inteira, quase até o punho. Os urros daquele homem não eram mais de prazer, ele estava apavorado. Engolido em seu próprio gozo e sucumbindo em silencio, aos poucos, à falta de ar. E ela? Gozava! Muito! Um prazer indescritível, incansável. Os dois corpos tremiam, o dele, o dela. Os dois, pelo  mesmo motivo: sentiam a proximidade da morte. De súbito, seu coração parou. Ela sorriu. Seu corpo inteiro amoleceu. Ele, morto, nu, deitado naquela cama, sem fôlego, sem ar, sem vida. Ela, morta, cansada, exausta, ainda viva, mas ferida!
Os dois corpos ali ficaram, lado a lado, em fúnebre despedida. Quando se recuperou, deu-se conta da tragédia vivida. Tarde demais! Todo os seus escrúpulos partiram, em retirada. Restara apenas: ele, morto; ela, meio viva.
Agora, com as forças renovadas pelo gozo, arrastava aquele corpo escada abaixo. Puxava-o pelos pés. Degrau por degrau, sua cabeça ia batendo, trazendo o  som oco de uma mente sem ideias, de um corpo sem sentidos. Nela, todas as memórias se faziam presentes, povoando incansáveis a sua mente. Cada (in)segundo, in(cessante) e (pre)mente.
Ia entregar seu corpo aos animais, para que o devorassem, pedaço por pedaço e não restasse enfim, nada mais. Nenhuma lembrança, nenhuma memória, nenhum laço.
Jogou aquele resto de gente, de um penhasco. Aquilo, foi se debatendo, feito um amontoado de coisas e partes desconexas, mole, frouxo, morto. Assistiu àquela cena e resolveu fumar um baseado, ali mesmo. Ao vento. Ao léu. Agora ela merecia relaxar. O céu estava estrelado, mas ela já não via a luz das estrelas. Agora, só havia o relance pálido da espuma das ondas do mar. Nada mais.
Saiu de lá, leve, tranquila. Mas antes, com o resto de fúria que ainda lhe restara, soltou o freio de mão e empurrou o carro. O vento agora uivava em sua nuca e soprava em seus cabelos. Ela já não sentia frio. Ela já não sentia calor. Ela já não sentia.
Virou-se. Ouviu o baque. Acendeu o béqui. Saiu caminhando ao relento da noite. Pé, ante pé.
Ela e as estrelas. Esperava que o destino a abraçasse e jamais a lógica, ou a desrazão, novamente perturbassem a sua paz. 
Enfim, estava livre, livre da dor, livre daquele corpo, livre daquela história, livre das memórias, livre do amor!
Naquele instante nascera. Naquele mesmo instante, morrera.

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