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Dúvidas, não as tenho mais


Sou

Ah, sim eu sou!

Dúvidas?

Não as tenho mais

Dúvidas?

Aprendi a dispensá-las, rir por entre suas garras, desviar de seus olhares


Sou

E só isso me importa agora.

Duvidas?

Ah, lamento por ti

O caminho que percorri não foi fácil nem sereno

Meus pés inchados, descalços, entregues

Aos pedregulhos, ao lamaçal


Duvidas?

Acredite, continue a duvidar e verás, assim como eu vi

O último passo rente ao penhasco,

E ao sentir o vento soprando em teus cabelos

Pare por um instante e poderás ouvir rente a tua nuca o sussurro doce, invisível e insaciável da morte a te incentivar o salto

E, ao contrário do que esperas, não haverá sobressaltos, gritos ou platéia

Estarás entregue somente a ti e ao chegar ali, lamento, mas a volta já te será impossível

E então, quando não sentires mais o chão por sobre teus pés a viagem terá enfim seu início

Achavas que era o fim... eu bem o sei... também achei

Mas é preciso ir além, além do inglório presente

É preciso quebrar cada osso do teu pobre corpo

É preciso despedaçar teu espelho, esparramar todo o teu sangue

Perder todo o sentido


Duvidas?

Também duvidei...

Mas a queda será mais longa do que desejas e mais curta do que imaginas

Não te enganes, o chão te aguarda, imóvel e pacientemente assiste à proximidade do teu ser, inerte e imóvel ou em debater-se frenético, agora, pouca diferença faz

E ao chegar enfim ao teu destino, não esperes o abraço terno da terra

Estarás só, nada acima, pouco abaixo, ninguém por perto, nem horizontes ou profundidades

Chegaste ao fundo da tua alma

O que te resta então?

Nada sobrou, pode ter certeza

Te lembras? Dúvidas, não as tenho mais

Vivi cada passo do percurso, tenho em minha alma todas as cicatrizes dessa viagem


Duvidas?

Lamento por ti...

Pois só se tiveres a coragem de ouvir a voz da morte, poderás ter a chance de uma nova vida

E a morte, não mais te amedrontará

Pois a cada dia se morre e se nasce


Duvidas?

Não duvido de ti... também duvidei

Mas se algum dia te encontrares nesse lugar do qual lhe falo, desfalecido, arrebatado pelas ondas da vida, compreenderás que nada tens a fazer a não ser entregar-te

Entrega-te enfim ao desconhecido

Entrega-te enfim à matéria da qual é feita a vida e assim, compreenderás porque agora digo

Dúvidas?

Não as tenho mais

Sou, e isso me basta


Em algum momento entre o final de 2008 e o início de 2009, mas só revelado neste.


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