Estou reaprendendo a viver
Deixando a dor se fazer
Lambendo minhas feridas
Esperando o tempo passar
Olhando para minhas perdas
Massageando minha carne
É preciso acalentar o meu peito
E em um fugaz momento viver,
No instante em que esse raio de luz penetra por entre meus olhos e atinge meu ser
Somente nesse instante, sem a certeza de algum outro, ou da presença futura dessa frágil lembrança
Hei de sentir um pouco da felicidade possível, para além da prisão que abriga minha alma
Quero poder olhar para o tempo que me aguarda e, mesmo sem saber, sem prever ou articular
Simplesmente crer
Sem fé ou qualquer tipo de religião
Sem culpa ou devoção
Quero elevar meus olhos para a linha desse horizonte e pisar com meus pés leves sobre o meu destino
Não sou tão forte que de mal nenhum padeça
Não sou tão fraca que um bem qualquer mereça
Sou carne humana
Sou pele, ossos, pelos e cabelos
Sou ar e sou água
Sustento-me por um fio
Um invisível fio que de forma trôpega e desatenta conduz minha vida
Até aqui...
Aqui onde me encontro agora
A lamber feridas
A espreitar o tempo, por entre palavras e pensamentos
Aqui onde me suspendo e por algum tempo posso ser um nada repleto
Deslumbra-me o próprio deslumbramento
Encanta-me o encantador
Surpreendo-me nas incertezas
Jamais ousei pensar a vida desse lugar
Jamais pensei que a vida exigisse ousar
É preciso abrir mão das lembranças
Velá-las e então sepultá-las sem alardes
Matá-las de inanição
Enfraquecê-las a cada nova palavra
A cada nova formulação
É preciso sim, abrir mão das lembranças
Pois só assim é possível se lançar à novidade
Só assim é possível se lançar
Só assim é possível
Só assim
Só
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