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Palavras me faltam


As palavras agora me faltam

Nada mais parece encontrar lugar em meus pensamentos, ou para além da ponta da pena nesse papel

As letras que combino para escrever agora ou falar logo mais não me parecem mais as mesmas

Soltaram-se dos contextos, voam livres pelo ar, capturo-as ao acaso, procuro combiná-las de alguma forma para que soem harmoniosas ou concisas, mas tudo isso me aparece agora como uma grande sucessão de equívocos

O que escrevo, ou o que falo, me parece agora tão pouco...

Nada mais, ninguém mais, nenhuma palavra a mais, ou a menos

Nada se aproxima, tudo mais ou menos a não ser o que sinto, que me é inominável, assim como o que penso me parece incontrolável, indecifrável

Cansei de encontrar sentidos e procurar por lugares em que meus sons possam ecoar, já ecoam por si, aqui, em mim, ao meu redor, em meus vazios, em meus abismos, em minhas cachoeiras

O que vivo ecoa em mim, por entre minhas pedras, no vão de meus troncos ocos a procurar o azul do céu, que bem sei, ainda vive para além de minhas folhas secas

O que vivo ecoa em mim sem palavras, em silêncio, entre limo, flor e espinhos

As palavras agora me faltam

Meu olhar se esgota no infinito que vivo em mim

Minha selva está densa, mata fechada, repleta de leves córregos, encharcada pelo vapor das águas que escorrem da imensidão das cachoeiras

Sou água, sou vapor, sou pântano, sou pedra e sou pó

Vivo o inesperado que me habita nessa selva povoada por sombras, luzes, cores, sabores e odores

Estou ali e não há o que ser dito

Inspiro desse ar de que meus pulmões se enchem, de um espaço que não me pertence, mas que, por um instante em mim faz morada, e me deixa, para nunca mais voltar

Vivo essa selva em mim

Sou planta, sou bicho, sou o pé descalço e o rosto molhado de chuva

Sou o que sinto ao me ver ali, imersa em meus castelos de cores e formas nuas, passageiras e anônimas

Vivo o anônimo que encontro em algum lugar em mim, não sei se aqui por dentro ou ali por fora,

Sou o peixe que parece voar ao deslizar por esse rio, sou o pássaro que flutua por entre as marcas invisíveis do ar

Sou aquela que sente, se encontra e se perde, seja por aqui fora ou ali por dentro

As palavras agora não me bastam, me faltam,

Preciso conhecê-las, apropriar-me ou deixar-me capturar, não consigo mais compreender o que meus lábios proferem, ou profanam

Meu som ficou vazio

Meu olhar infinito

E em minha boca aberta, só o hálito há, de minhas estranhas entranhas

O vapor de meu ser, amarrado ao meu corpo

E a fonte que brota de meus olhos, displicente, inesperada e insistente

Sou os pés descalços, sou a mão levada ao peito, sou o gracioso e o ridículo de meu corpo à procura do que possa ainda haver de concreto

Sou a sede, sou o frio e o calor

Sou a dor e talvez ainda o amor.


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