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Bem vinda seja, pois...

Não te quero falar da tristeza previsível,
que nos chega no bojo,
de um qualquer fatal incidente.
Desejo que mergulhes comigo
até onde poucos buscam a pérola negra
desse sentimento raro,
ao redor do qual parece crescer
a carne da alma. Uma dor tão funda
que se lhe resistimos
o SER nos treme por inteiro,
como que ameaçado de vertigem.

De qual noite nos lembramos,
repleta de sobressaltos,
que se lhe possa comparar?
De que rosto ousamos dizer:
"É tão belo e terrível
quanto a sombra que às vezes me visita
e cujo toque me faz esmorecer
como se eu estivesse nas vizinhanças da morte"?

Nós, que tão fortes nos lançamos
à conquista, mal nos atrevemos a balbuciar
quando essa tristeza nos enlaça.
É como se esperássemos uma revelação
capaz de subverter nossa existência.
Por isso, ela nos abala como um parto,
ao qual nos submetemos,
por isso, quando nos abandona,
olhamos ao redor, como se buscássemos
um fruto ou uma prova
de que já não podemos ser os mesmos;
de que uma florescência do Eterno
brotou de nós para durar
depois que tivermos partido.
Sem essa dor seríamos apenas
animais humanos, uma erupção
na face do Tempo. Bem-vinda seja pois,
a chama que nos edifica
sem jamais se dar a conhecer.
Divino sinal que nos permite
almejar e transcender.

Poesia de Eduardo Alves da Costa - No Caminho com Maiakóvski


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